23.5.17

persianas horizontais


controlar a luminosidade 
dos astros [seus pequenos incêndios]
o melhor campo de visão anti-
espionagem é ver ou não

toco suas pálpebras e observo
as pupilas dilatando, o corpo 
que se abre ao campo 
esvoaçante das cortinas. podem ser


também as franjas, os óculos e os penduricalhos


7.4.17

__ kg.



Giovani, meu irmão 
uma vez me disse: uma quitinete 
é menor do que um livro. 
Vivo numa quitinete e hoje 
é minha vez de tentar 
organizar o mundo 
nos meus livros, com todos os seus 
ou meus defeitos gráficos erros 
de impressão e arte
dedicatórias com ou sem 
suspiros ainda presentes.
Decidir o que manter 
ou não na prateleira 
[objetos cortantes]
é um périplo se o título está 
esgotado ou superado 
e tudo está 

fora do lugar, então escolho 
o que colocar na caixa - um procedimento
ora cirúrgico ora penal, quando 
a lembrança oxida o tempo 
de tanto lembrá-lo de si 
[não me deixe]
porque a lembrança 
habitando o livro apenas
está fora de si e já não 
investiga propósitos. 
Uma lembrança precisa ir
se ela está fora de si
apenas 
não está dentro
então ela deve ir-
se despedindo, mas ela cai
lenta e grave, lenço em riste
a carpideira, que resistia 
aos passeios de balão-
sonda, agora parte, cansada
num dirigível de sal.



9.9.16

feijão


o medo

é algo difuso quando
tudo está por um triz. nem sempre

entendemos o que embala
um balanço
uma gangorra
ou um barco


a menina

às vezes sim às vezes não
consegue fazer nada

nem vestir uma roupa limpa
e do avesso 
ou cuidar de uma planta
cultivada num chumaço de algodão

um limite - ela percebe o limite
do corpo noutro corpo
incognoscível.

(ele me ensina coisas duras)



10.5.16

assula studium


quebra-se a primeira taça da casa

ela ainda está ali
seu momento 
cindido
repousa no chão da sala
[silêncio de funeral]


eis a dança 
bruta dos vulcões

eis a dança
ignorante dos espaços


ei-la: coxa, ávida, um desastre
rompendo o que não se restaura 
se fazendo só de som e sendo
mais lâmina que a própria lâmina 
do objeto perdido
[agora brilham menos 
os olhos que os cacos]


pisar nos cacos; sentir 
o chão nos cacos; sentir 
o peso do próprio corpo aberto 
para autópsia:

- meu deus!

[está aberta
a temporada dos espantos
                        meu amor]


costurados na pele, os cacos
esquecem que já foram taça


26.3.16

cholla


los cactáceos son plantas suculentas 
que colorean los desiertos cuando 
en todas partes sobran desiertos

necesito escribírtelo

porque no puedo entrar en tu casa
pero la he visto allí 
desde el balcón
una maceta con la misma especie 
de flor de cactus 
que ahora cultivo en el jardín

[el mismo tono grisáceo
la belleza melancólica
los ojos de abismo]

no puedo entrar en tu casa 
regártela si necesitas 
de agua a veces apenas llueve 
pero cómo duele 
y alegra a la vez vigilar de soslayo 
el color de la corola 
imposible.

acabo de empezar una fiesta; la flor 
de mi cactus crece; bailamos; el jardín es puro 
azúcar y blues; ninguna gota 
de sangre en los dedos; nuestros trajes
siguen intactos; primavera oculta 
en los dientes; la savia
nutre en silencio; no herir
el tallo; no herir el tallo; sin embargo 

necesito escribírtelo 

porque tal vez no lo sepas tal vez 
ignores
tu propio perfume
[envidio la mujer que lo conozca]

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