23.5.17

persianas horizontais


controlar a luminosidade 
dos astros [seus pequenos incêndios]
o melhor campo de visão anti-
espionagem é ver ou não

toco suas pálpebras e observo
as pupilas dilatando, o corpo 
que se abre ao campo 
esvoaçante das cortinas. podem ser


também as franjas, os óculos e os penduricalhos


13.5.17

cadáver exquisito



A língua é só um detalhe. A língua
não é uma víscera. A língua é um músculo 
cuja ausência de ossos permite modular 
sons complexos que, por acaso, podem também
fazer cócegas no ar. 
Mesmo que eu me tornasse 
estrangeira, minha língua nunca seria estrangeira. 
A carne epiléptica
tem que nascer e nasce 
onde nasce.

Só depois da língua é que vem 
o coração, a dobra-
dinha, a moela, as entranhas 
do porco, do bode, do touro e da galinha
que não podem falar. Eu falo
porco, bode, touro e galinha. Eu falo, sim
ao porco, ao bode, ao touro e à galinha. Eu falo 
minha comida, meus amigos, mas é com as mãos 
que como, com as mãos que toco
aperto, espremo, abro, entro e não levo 
as mãos à boca que pergunta 
como não manchar o traje.

A comida sujava menos no tempo do rito?
Cólera. Pássaro negro. Civilizações inteiras. 
Cores e formas áureas. Flor de Lótus. 
Ervas, fungos e cipós. Luz que cega e morre.
Antares! É no erro que mora a diabólica
mãe da beleza, por isso é tão difícil 
morar na beleza de um penhasco. 

Todo gênio se considera uma fraude 
ou não. Toda fraude é genial. 
Chupo os ossos da dúvida. A hiena ri.
Jamais sentirei fome novamente.


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