22.1.14

a boca de madeira*

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!
                                                                                                                                                             Rimbaud**

no moinho
vermelho ao pé do monte
marta

suzanne, a ébria                                                                                      
e sua boca de madeira                 
degustam a cova dos copos
secos

[...água-corpo mareado...]
[...copo-mar revolto...]

a cólera dos copos
no mar agitado dos corpos e seus
lapsos são memórias fora de si

- Suzanne, onde pousou sua lembrança?


[ali                              
uma lembrança paira
e silencia o torpor]


- O que esqueci já não me habita. 

sua boca
pintada na cor do moinho
é um poço de tormentas: ela habita 
labirinto onde a perdi

sentada e agora em pé
sua espinha diagonal
sua cabeça pendular
estaiadas pelas mãos
contemplam randômicas 
o cabaré, a mesa, seu corpo                 
cambaleante                                                                             

[e a ressaca]

contudo
ao tremor de tantos copos e corpos
moinhos terremotos [seu deleite?]
não haveria mais copioso acompanhamento

qual aos patos e aos gansos
sua boca de madeira
seu foie gras


* Escrito a partir do quadro A Ressaca (Gueule de Bois, La Buveuse), retrato de Suzanne Valadon por Toulouse-Lautrec.
** Frangmento de O Barco Bêbado (tradução de Augusto de Campos).


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